São Paulo – Filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT) há mais de três décadas, Marta Suplicy sempre foi um dos nomes mais expoentes da sigla. Agora, depois de uma série de críticas ao governo de Dilma Rousseff, a senadora está a um passo a deixar o partido que ajudou a fundar e conduzir ao poder.

Em entrevista publicada ontem no jornal Estado de S. Paulo, a ex-prefeita de São Paulo teceu uma série de críticas a colegas do partido – entre eles, a presidente Dilma, o ministro Aloisio Mercadante e Rui Falcão, presidente da sigla e ex-aliado da senadora. Segundo ela, “ou o PT muda, ou acaba”.

Esta não foi a primeira vez que a ex-ministra da Cultura alfineta a atual gestão petista. Quando deixou a pasta, Marta criticou a direção de Dilma na economia e afirmou que a presidente deveria escolher uma equipe capaz de resgatar a credibilidade do governo.

A senadora também não escondeu seu descontentamento com a nomeação de Juca Ferreira para sucedê-la na Cultura e, recentemente, enviou documentos à Controladoria-Geral da União (CGU) que denunciariam supostas irregularidades da gestão do petista na pasta entre 2008 e 2010.

O incômodo de Marta com o atual governo pode estar relacionado às mudanças que ocorreram na sigla nos últimos 12 anos – entre elas, a nova reconfiguração da estrutura interna de poder que limitou o protagonismo político da senadora.

1. Mesmo no governo, Marta ficou de fora da partilha do poder

Apesar de ter feito parte da equipe ministerial de Dilma nos últimos dois anos, Marta ficou confinada a uma pasta que historicamente dispõe de poucos recursos e importância política. Durante o governo Lula, idem.

“Em 2012, especulava-se que ela poderia ser ministra da Educação. Ou seja, havia uma possibilidade da Marta ter uma posição de destaque no governo. Não foi o que se colocou”, afirma Wagner Romão, professor de Ciências Políticas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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2. Há 10 anos, Marta não emplaca uma candidatura de destaque no Executivo

 

O descontentamento da senadora com o partido não é recente. Desde 2004, quando não conseguiu se reeleger para a prefeitura de São Paulo, Marta foi sistematicamente preterida pelo PT para outros cargos no Executivo. A exceção foi em 2008, quando ela perdeu a disputa pela prefeitura paulistana para Gilberto Kassab, então do PSD.

“Os políticos precisam ganhar eleições. Se não ganham, tendem a perder seu protagonismo político”, afirma Romão.

A última vitória de Marta nas urnas aconteceu na disputa por uma cadeira no Senado em 2010, quando cada estado elegeria dois representantes. “A eleição que Suplicy perdeu em 2014 foi duas vezes mais difícil do que a que ela venceu em 2010”, diz.

Na entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Marta admitiu que a presidência da República era um de seus objetivos e que quando Lula expôs que uma mulher iria sucedê-lo no cargo, ela imaginou que estaria entre as cotadas.

“Logo vi aquela história de ‘mãe do PAC’ e que era Dilma. Ou ficava contra e não fazia coisa nenhuma, ou ajudava. Mais uma vez, decidi ajudar”, afirmou.

Dois anos depois da eleição que levou Dilma ao Planalto, a já senadora tentou disputar a prefeitura de São Paulo. O partido, no entanto, preferiu Fernando Haddad.

A posse no Ministério da Cultura no mesmo ano veio com uma espécie de prêmio de consolação – no entanto, a vitória de Haddad nas urnas paulistanas enterrou as chances de Marta tentar voltar à prefeitura de São Paulo em 2016 como candidata do PT.

3. O Mensalão deixou Marta isolada dentro do partido

A condenação de alguns dos principais nomes petistas no processo do mensalão rearranjou a estrutura de poder dentro do PT. E Marta acabou isolada. “Ela não faz mais parte do grupo restrito de interlocução do governo. Ela não toma decisões e não é consultada”, afirma o professor.

Ao jornal Estado de S. Paulo, a senadora afirmou que teria sido excluída da campanha de Dilma e Alexandre Padilha em São Paulo. Ao ex-candidato ao governo do estado, ela teria afirmado: “Ô Padilha, entenda. Eu não sou mais objeto utilitário, acabou essa minha função no PT”.

4. O “Volta, Lula” estremeceu suas relações com o governo

A senadora não foi a única dentro do PT a se empenhar pela candidatura de Lula nas eleições presidenciais de 2014. O problema é que, naquele momento, ela fazia parte da equipe ministerial de Dilma e o apoio ao retorno do Lula em detrimento da candidatura da presidente não caiu bem.

O movimento encabeçado pela senadora acabou não surtindo efeito e Dilma entrou na disputa pela reeleição. Marta, por sua vez, não se empenhou pela vitória da presidente – ao contrário da maior parte dos ministros. Com a apertada vitória de Dilma nas urnas, sua presença no governo se tornou insustentável.

Ao jornal Estado de S. Paulo, ela afirmou que já teria recebido convites de outros partidos, mas que ainda não decidiu seu futuro político. A tendência é que ela saia candidata à Prefeitura de São Paulo no ano que vem. Se isso acontecer, Romão afirma que a reeleição de Fernando Haddad pode ficar mais difícil.

“Marta expressa um sentimento de uma parte da militância e de parte dos dirigentes do partido. Mas em termos de atitude, ela está isolada”, afirma o especialista.
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